23 de set. de 2015
Numa sociedade em que o cidadão é
monitorado por "olhos eletrônicos", faróis inteligentes, câmeras
digitais, numa constante sensação de paranóia implícita, o resultado não pode
ser dos melhores. Quando a vida pessoal se transforma num inferno
particular, o mal-estar crônico adquire novas formas sintomáticas e a ansiedade
toma conta.
Neste momento, o que se recomenda é
procurar ajuda profissional. Se for um médico ou psiquiatra, a terapia
medicamentosa estará ao alcance das mãos, mas se a opção fosse um psicanalista,
a terapia baseada na palavra faria o sujeito falar do seu sofrimento. A
prática clínica consiste em fazer o paciente contar sobre quem ele pensa que é
e como ele se apresenta para si e para quem o escuta.
Como enfatizava Jacques Lacan, o
analista age menos pelo que diz e faz do que por aquilo que é.Significa que
este exerce essa função somente quando houver alguém que lhe demande neste
lugar. Entre quatro paredes e um divã, o analista se pergunta: O que ele quer
de mim? A cura ou o apego ao sintoma? Quem ele pensa que sou, quando diz isso?
Em outras palavras, o analista
funciona como arrimo das representações inconscientes com as quais o paciente
dialoga e lida sem saber ao certo que isso acontece na transferência. A
associação livre, regra fundamental do tratamento, opera mudanças quando o
discurso faz um novo sentido, redefinindo o modo de escutar a própria
história. Quem não deseja falar de si para alguém? Ainda mais, quando as
relações são vividas como superficiais, passageiras e vazias. Na era da
comunicação móvel, o diálogo não é mais dialógico, é atravessado pelas lentes
das tecnologias digitais criando uma profusão de sentidos díspares.
Para os mais jovens, as novas mídias e
as redes sociais digitais (facebook, twitter, blogs) são fatos consumados: por
meio destas tecnologias que a vida rola solta.Alguns analistas acompanham a
tendência e postam páginas no facebook, enquanto outros são seguidos no twitter
ou nos blogs inteligentes e criativos sobre temas do cotidiano. Estes eventos
demonstram que a sociabilidade em rede, onde o virtual e o real são vivenciados
como sendo a mesma coisa, chegou para ficar e apresenta dinâmicas nunca antes
cogitadas, enquanto a energia se sustentar, pois na falta dá-se o
caos. Algumas situações que ocorrem hoje em sessões de análise confirmam
como a cultura digital faz parte da produção do inconsciente. Os
analisantes se valem do torpedo para mandar mensagens ao psicanalista como:
"estou a caminho", "desculpe, mas não poderei ir",
"podemos mudar a sessão?" ou, quando não desligam o celular e dizem:
"desculpe, mas preciso atender" ou "vou desligar o
aparelho". Outro fenômeno interessante é quando o paciente, para ser
o mais fiel em seu discurso, lê o que o outro lhe escreveu no celular. Sob
esta perspectiva, as linguagens apresentadas sob os diferentes suportes -
tablets, smartphones, laptops - compõem um aspecto da transferência de saber
que a psicanálise atual deve conhecer e manejar. Segundo a semioticista
Lucia Santaella, "estamos vivendo a transição entre um modelo de acesso
restrito à informação para um modelo aberto e livre, no qual a informação se
espalha por todas as superfícies e ambientes". Com essa constatação,
fica-se mais exposto ao meio; porém, isto poderia prejudicar as análises? Ou,
quanto mais o psicanalista parecer como um de nós, menor seria a idealização
que gira em torno dele?
No passado, havia uma idéia de que o
paciente não podia ter acesso à vida privada do analista, ao ponto de se
produzir enormes resistências ao tratamento, se algo fosse revelado da sua
intimidade.
O constrangimento maior era
encontrá-lo em ambientes comuns e não saber o que fazer: cumprimentar, ignorar
ou se esconder. Naquelas épocas, as análises eram restritas apenas à elite que
podia pagar por elas, e os profissionais, todos de formação médica.
Tudo isso mudou! Hoje, os
psicanalistas são psicólogos em grande maioria, e a psicanálise tornou-se
conhecida e mais acessível. Desperta curiosidade, desejo de conhecer e
experimentar; é assunto freqüente, tanto na mídia, quanto nas pesquisas
acadêmicas.
Em público, diversos analistas emitem
opiniões, participam de entrevistas e debates sobre temas da própria práxis.
Apesar de tantas informações, as
pessoas têm dificuldade de diferenciar psicoterapeuta, psicólogo, psicanalista
e psiquiatra, ainda que se tenha confiança de serem profissionais que cuidam da
"cabeça", da "mente", do "subconsciente", do
"psicológico" e do "comportamento".
As pessoas chegam aos consultórios com
pesquisas feitas no Google sobre o remédio que estão tomando ou sobre o sintoma
favorito, resultando em informações fragmentadas sobre a matéria. Não são
poucas as medicadas indiscriminadamente; mais por médicos generalistas do que
por psiquiatras.
Com notável sucesso de vendas e com o
aumento de usuários das "tarjas prestas", o perfil do consumidor
interessou as agências de publicidade, com os remédios apresentados na
propaganda como produtos de primeira necessidade.
Não é para menos, quem ficou
dependente de ansiolíticos e/ou antidepressivos, para poder se livrar deles,
precisa tomar outra pílula que anula o efeito da anterior, e assim por diante.
É preciso um coquetel de pílulas para
um coquetel de sintomas, deixando como rastro o insone que erra nas noites mal
dormidas. Quem já passou por isso se reconhece quando alguém diz, ao chegar ao
trabalho: "Cara, não agüentei e tomei um Dramin, e agora não consigo parar
em pé".
A ausência de sono que afeta tanta
gente, seja esta breve ou prolongada, é de tirar do sério. Para muitos, o uso
constante das gotas de Rivotríl é mais eficaz do que contar carneirinhos. Pois
é: até para nanar, é preciso se dopar!
Localizado no sono REM, o sonho é
suprimido pela ação da droga, e não há nada menos salutar do que deixar de
sonhar, sem lembrar nada para contar. Perde-se uma parte de si, um detalhe do
mundo anímico que faz coro com o autoconhecimento e a dimensão subjetiva do
desejo.
O inconsciente, patrimônio freudiano,
nada tem a ver com o sistema nervoso central ou periférico. Mas, quando não
podemos evitar que algumas fórmulas de compromisso caduquem com o passar do
tempo, inviabilizando a felicidade e a tranqüilidade, talvez seja o momento
exato para começar uma análise.
Os seres humanos são complicados,
melhor dizendo, complexos. Soltos no mundo, desde crianças, temos de responder,
como adultos, aos desafios da vida, antes reais do que virtuais. E o fato de
sermos falantes, sexuados e mortais, isso não tem remédio. Independente dos
meios eletrônicos, a cura pela palavra mantém seu prestígio, com mais de um
século de sucesso em cartaz.
FANI HISGAIL é psicanalista e doutora em Comunicação e
Semiótica pela PUC/SP e autora do livro "Pedofilia, Um Estudo
Psicanalítico" (Ed. Iluminuras, 2007);
17 de set. de 2015
Assim como a vitamina D, tenho visto muito no consultório deficiência de B12. Essa vitamina é importante para formação das células vermelhas do sangue (formação, integridade e maturação das hemácias), essencial para o sistema nervoso central (desenvolvimento e manutenção das funções do sistema nervoso. Sem essa vitamina, a mielina que recobre os nervos, como uma capa de proteção, sofre um desgaste que recebe o nome de desmielinização, processo que ocorre tanto em neurônios de nervos periféricos, quanto naqueles da substância branca do cérebro), importante para o DNA (reduzi o risco de quebras nos cromossomos levando a danos no DNA), e previne a anemia megaloblástica.
A deficiência de vitamina B12 pode causar uma série de problemas. Como:
* lesões irreversíveis no sistema nervoso, devido à morte dos neurônios (provoca sintomas como formigamento nas pernas, queimação na sola dos pés, dificuldade para andar e incontinência urinária)
* Aumenta o risco da pessoa desenvolver depressão
* Fadiga, falta de energia ou tontura ao se levantar ou fazer esforço
* Falta de concentração
* Falhas na memória
* Paranoia e alucinações
* Pele amarelada (icterícia)
* Língua inchada e inflamada
A vitamina B12 está presente em boas quantidades nos alimentos de origem animal, especialmente nos peixes de águas frias e profundas, como salmão, truta e atum, fígado, carne de porco, leite e derivados, ovos, ostras e carne bovina. Procure um nutricionista para avaliar a necessidade de suplementação!
7 de set. de 2015
Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, a Pós-modernidade traz consigo a marca delaços líquidos, em outras palavras, fluídos, entre as relações de trabalho, de amizade eaté mesmo nas relações amorosas. Assim, o amor se mostra, na contemporaneidade, com um formato distinto do amor cortês, caracterizando-se, cada vez mais, por novos rearranjos. Contudo, isso não retira a importância de pensarmos o amor na teoria e na clínica psicanalítica, a partir do pensamento de Freud e Lacan. Ao contrário, trata-se de escutar o que está em questão no amor, a fim de que possamos escutar o que a contemporaneidade pode nos trazer de novo. Nessa direção, decidimos colocar a entrevista de Jaques-Alain Miller, a qual faz viva, na atualidade, as colocações de Freude Lacan, de forma clara e acessível.
"Entrevista de Jacques-Alain Miller à Psychologies: “Para amar, é necessário reconhecer que se tem necessidade do outro”
“Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers – se posso dizer – homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias”.(Jacques-Alain Miller)
Psychologies: A psicanálise ensina alguma coisa sobre o amor?
Jacques-Alain Miller: Muito, pois é uma experiência cuja fonte é o amor. Trata-se desse amor automático, e freqüentemente inconsciente, que o analisando dirige ao analista e que se chama transferência. É um amor fictício, mas é do mesmo estofo que o amor verdadeiro. Ele atualiza sua mecânica: o amor se dirige àquele que a senhora pensa que conhece sua verdade verdadeira. Porém, o amor permite imaginar que essa verdade será amável, agradável, enquanto ela é, de fato, difícil de suportar.
Jacques-Alain Miller: Muito, pois é uma experiência cuja fonte é o amor. Trata-se desse amor automático, e freqüentemente inconsciente, que o analisando dirige ao analista e que se chama transferência. É um amor fictício, mas é do mesmo estofo que o amor verdadeiro. Ele atualiza sua mecânica: o amor se dirige àquele que a senhora pensa que conhece sua verdade verdadeira. Porém, o amor permite imaginar que essa verdade será amável, agradável, enquanto ela é, de fato, difícil de suportar.
Psychologies: Então, o que é amar verdadeiramente?
Jacques-Alain Miller: Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão “Quem sou eu?”.
Jacques-Alain Miller: Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão “Quem sou eu?”.
Psychologies: Por que alguns sabem amar e outros não?
Jacques-Alain Miller: Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers – se posso dizer – homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias.
Jacques-Alain Miller: Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers – se posso dizer – homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias.
Psychologies: “Ser completo sozinho”: só um homem pode acreditar nisso…
Jacques-Alain Miller: Acertou! “Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem”. O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua “castração”, como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.
Jacques-Alain Miller: Acertou! “Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem”. O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua “castração”, como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.
Psychologies: Amar seria mais difícil para os homens?
Jacques-Alain Miller: Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a “degradação da vida amorosa” no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.
Jacques-Alain Miller: Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a “degradação da vida amorosa” no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.
Psychologies: E nas mulheres?
Jacques-Alain Miller: É menos habitual. No caso mais freqüente há desdobramento do parceiro masculino. De um lado, está o amante que as faz gozar e que elas desejam, porém, há também o homem do amor, feminizado, funcionalmente castrado. Entretanto, não é a anatomia que comanda: existem as mulheres que adotam uma posição masculina. E cada vez mais. Um homem para o amor, em casa; e homens para o gozo, encontrados na Internet, na rua, no trem…
Jacques-Alain Miller: É menos habitual. No caso mais freqüente há desdobramento do parceiro masculino. De um lado, está o amante que as faz gozar e que elas desejam, porém, há também o homem do amor, feminizado, funcionalmente castrado. Entretanto, não é a anatomia que comanda: existem as mulheres que adotam uma posição masculina. E cada vez mais. Um homem para o amor, em casa; e homens para o gozo, encontrados na Internet, na rua, no trem…
Psychologies: Por que “cada vez mais”?
Jacques-Alain Miller: Os estereótipos socioculturais da feminilidade e da virilidade estão em plena mutação. Os homens são convidados a acolher suas emoções, a amar, a se feminizar; as mulheres, elas, conhecem ao contrário um certo “empuxo-ao-homem”: em nome da igualdade jurídica são conduzidas a repetir “eu também”. Ao mesmo tempo, os homossexuais reivindicam os direitos e os símbolos dos héteros, como casamento e filiação. Donde uma grande instabilidade dos papéis, uma fluidez generalizada do teatro do amor, que contrasta com a fixidez de antigamente. O amor se torna “líquido”, constata o sociólogo Zygmunt Bauman. Cada um é levado a inventar seu próprio “estilo de vida” e a assumir seu modo de gozar e de amar. Os cenários tradicionais caem em lento desuso. A pressão social para neles se conformar não desapareceu, mas está em baixa.
Jacques-Alain Miller: Os estereótipos socioculturais da feminilidade e da virilidade estão em plena mutação. Os homens são convidados a acolher suas emoções, a amar, a se feminizar; as mulheres, elas, conhecem ao contrário um certo “empuxo-ao-homem”: em nome da igualdade jurídica são conduzidas a repetir “eu também”. Ao mesmo tempo, os homossexuais reivindicam os direitos e os símbolos dos héteros, como casamento e filiação. Donde uma grande instabilidade dos papéis, uma fluidez generalizada do teatro do amor, que contrasta com a fixidez de antigamente. O amor se torna “líquido”, constata o sociólogo Zygmunt Bauman. Cada um é levado a inventar seu próprio “estilo de vida” e a assumir seu modo de gozar e de amar. Os cenários tradicionais caem em lento desuso. A pressão social para neles se conformar não desapareceu, mas está em baixa.
Psychologies: “O amor é sempre recíproco”, dizia Lacan. Isso ainda é verdade no contexto atual? O que significa?
Jacques-Alain Miller: Repete-se esta frase sem compreendê-la ou compreendendo-a mal. Ela não quer dizer que é suficiente amar alguém para que ele vos ame. Isso seria absurdo. Quer dizer: “Se eu te amo é que tu és amável. Sou eu que amo, mas tu, tu também estás envolvido, porque há em ti alguma coisa que me faz te amar. É recíproco porque existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças”. Isso não assegura, de forma alguma, que ao amor de um responderá o amor do outro: isso, quando isso se produz, é sempre da ordem do milagre, não é calculável por antecipação.
Jacques-Alain Miller: Repete-se esta frase sem compreendê-la ou compreendendo-a mal. Ela não quer dizer que é suficiente amar alguém para que ele vos ame. Isso seria absurdo. Quer dizer: “Se eu te amo é que tu és amável. Sou eu que amo, mas tu, tu também estás envolvido, porque há em ti alguma coisa que me faz te amar. É recíproco porque existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças”. Isso não assegura, de forma alguma, que ao amor de um responderá o amor do outro: isso, quando isso se produz, é sempre da ordem do milagre, não é calculável por antecipação.
Psychologies: Não se encontra seu ‘cada um’, sua ‘cada uma’ por acaso. Por que ele? Por que ela?
Jacques-Alain Miller: Existe o que Freud chamou de Liebesbedingung, a condição do amor, a causa do desejo. É um traço particular – ou um conjunto de traços – que tem para cada um função determinante na escolha amorosa. Isto escapa totalmente às neurociências, porque é próprio de cada um, tem a ver com sua história singular e íntima. Traços às vezes ínfimos estão em jogo. Freud, por exemplo, assinalou como causa do desejo em um de seus pacientes um brilho de luz no nariz de uma mulher!
Jacques-Alain Miller: Existe o que Freud chamou de Liebesbedingung, a condição do amor, a causa do desejo. É um traço particular – ou um conjunto de traços – que tem para cada um função determinante na escolha amorosa. Isto escapa totalmente às neurociências, porque é próprio de cada um, tem a ver com sua história singular e íntima. Traços às vezes ínfimos estão em jogo. Freud, por exemplo, assinalou como causa do desejo em um de seus pacientes um brilho de luz no nariz de uma mulher!
Psychologies: É difícil acreditar em um amor fundado nesses elementos sem valor, nessas baboseiras!
Jacques-Alain Miller: A realidade do inconsciente ultrapassa a ficção. A senhora não tem idéia de tudo o que está fundado, na vida humana, e especialmente no amor, em bagatelas, em cabeças de alfinete, os “divinos detalhes”. É verdade que, sobretudo no macho, se encontram tais causas do desejo, que são como fetiches cuja presença é indispensável para desencadear o processo amoroso. As particularidades miúdas, que relembram o pai, a mãe, o irmão, a irmã, tal personagem da infância, também têm seu papel na escolha amorosa das mulheres. Porém, a forma feminina do amor é, de preferência, mais erotômana que fetichista : elas querem ser amadas, e o interesse, o amor que alguém lhes manifesta, ou que elas supõem no outro, é sempre uma condição sine qua non para desencadear seu amor, ou, pelo menos, seu consentimento. O fenômeno é a base da corte masculina.
Jacques-Alain Miller: A realidade do inconsciente ultrapassa a ficção. A senhora não tem idéia de tudo o que está fundado, na vida humana, e especialmente no amor, em bagatelas, em cabeças de alfinete, os “divinos detalhes”. É verdade que, sobretudo no macho, se encontram tais causas do desejo, que são como fetiches cuja presença é indispensável para desencadear o processo amoroso. As particularidades miúdas, que relembram o pai, a mãe, o irmão, a irmã, tal personagem da infância, também têm seu papel na escolha amorosa das mulheres. Porém, a forma feminina do amor é, de preferência, mais erotômana que fetichista : elas querem ser amadas, e o interesse, o amor que alguém lhes manifesta, ou que elas supõem no outro, é sempre uma condição sine qua non para desencadear seu amor, ou, pelo menos, seu consentimento. O fenômeno é a base da corte masculina.
Psychologies: O senhor atribui algum papel às fantasias?
Jacques-Alain Miller: Nas mulheres, quer sejam conscientes ou inconscientes, são mais determinantes para a posição de gozo do que para a escolha amorosa. E é o inverso para os homens. Por exemplo, acontece de uma mulher só conseguir obter o gozo – o orgasmo, digamos – com a condição de se imaginar, durante o próprio ato, sendo batida, violada, ou de ser uma outra mulher, ou ainda de estar ausente, em outro lugar.
Jacques-Alain Miller: Nas mulheres, quer sejam conscientes ou inconscientes, são mais determinantes para a posição de gozo do que para a escolha amorosa. E é o inverso para os homens. Por exemplo, acontece de uma mulher só conseguir obter o gozo – o orgasmo, digamos – com a condição de se imaginar, durante o próprio ato, sendo batida, violada, ou de ser uma outra mulher, ou ainda de estar ausente, em outro lugar.
Psychologies: E a fantasia masculina?
Jacques-Alain Miller: Está bem evidente no amor à primeira vista. O exemplo clássico, comentado por Lacan, é, no romance de Goethe, a súbita paixão do jovem Werther por Charlotte, no momento em que a vê pela primeira vez, alimentando ao numeroso grupo de crianças que a rodeiam. Há aqui a qualidade maternal da mulher que desencadeia o amor. Outro exemplo, retirado de minha prática, é este: um patrão qüinquagenário recebe candidatas a um posto de secretária. Uma jovem mulher de 20 anos se apresenta; ele lhe declara de imediato seu fogo. Pergunta-se o que o tomou, entra em análise. Lá, descobre o desencadeante: ele havia nela reencontrado os traços que evocavam o que ele próprio era quando tinha 20 anos, quando se apresentou ao seu primeiro emprego. Ele estava, de alguma forma, caído de amores por ele mesmo. Reencontra-se nesses dois exemplos, as duas vertentes distinguidas por Freud: ama-se ou a pessoa que protege, aqui a mãe, ou a uma imagem narcísica de si mesmo.
Jacques-Alain Miller: Está bem evidente no amor à primeira vista. O exemplo clássico, comentado por Lacan, é, no romance de Goethe, a súbita paixão do jovem Werther por Charlotte, no momento em que a vê pela primeira vez, alimentando ao numeroso grupo de crianças que a rodeiam. Há aqui a qualidade maternal da mulher que desencadeia o amor. Outro exemplo, retirado de minha prática, é este: um patrão qüinquagenário recebe candidatas a um posto de secretária. Uma jovem mulher de 20 anos se apresenta; ele lhe declara de imediato seu fogo. Pergunta-se o que o tomou, entra em análise. Lá, descobre o desencadeante: ele havia nela reencontrado os traços que evocavam o que ele próprio era quando tinha 20 anos, quando se apresentou ao seu primeiro emprego. Ele estava, de alguma forma, caído de amores por ele mesmo. Reencontra-se nesses dois exemplos, as duas vertentes distinguidas por Freud: ama-se ou a pessoa que protege, aqui a mãe, ou a uma imagem narcísica de si mesmo.
Psychologies: Tem-se a impressão de que somos marionetes!
Jacques-Alain Miller: Não, entre tal homem e tal mulher, nada está escrito por antecipação, não há bússola, nem proporção pré-estabelecida. Seu encontro não é programado como o do espermatozóide e do óvulo; nada a ver também com os genes. Os homens e as mulheres falam, vivem num mundo de discurso, e isso é determinante. As modalidades do amor são ultra-sensíveis à cultura ambiente. Cada civilização se distingue pela maneira como estrutura a relação entre os sexos. Ora, acontece que no Ocidente, em nossas sociedades ao mesmo tempo liberais, mercadológicas e jurídicas, o “múltiplo” está passando a destronar o “um”. O modelo ideal do “grande amor de toda a vida” cede, pouco a pouco, terreno para o speed dating, o speed loving e toda floração de cenários amorosos alternativos, sucessivos, inclusive simultâneos.
Jacques-Alain Miller: Não, entre tal homem e tal mulher, nada está escrito por antecipação, não há bússola, nem proporção pré-estabelecida. Seu encontro não é programado como o do espermatozóide e do óvulo; nada a ver também com os genes. Os homens e as mulheres falam, vivem num mundo de discurso, e isso é determinante. As modalidades do amor são ultra-sensíveis à cultura ambiente. Cada civilização se distingue pela maneira como estrutura a relação entre os sexos. Ora, acontece que no Ocidente, em nossas sociedades ao mesmo tempo liberais, mercadológicas e jurídicas, o “múltiplo” está passando a destronar o “um”. O modelo ideal do “grande amor de toda a vida” cede, pouco a pouco, terreno para o speed dating, o speed loving e toda floração de cenários amorosos alternativos, sucessivos, inclusive simultâneos.
Psychologies: E o amor no tempo, em sua duração? Na eternidade?
Jacques-Alain Miller: Dizia Balzac: “Toda paixão que não se acredita eterna é repugnante”. Entretanto, pode o laço se manter por toda a vida no registro da paixão? Quanto mais um homem se consagra a uma só mulher, mais ela tende a ter para ele uma significação maternal: quanto mais sublime e intocada, mais amada. São os homossexuais casados que melhor desenvolvem esse culto à mulher: Aragão canta seu amor por Elsa; assim que ela morre, bom dia rapazes! E quando uma mulher se agarra a um só homem, ela o castra. Portanto, o caminho é estreito. O melhor caminho do amor conjugal é a amizade, dizia, de fato, Aristóteles.
Jacques-Alain Miller: Dizia Balzac: “Toda paixão que não se acredita eterna é repugnante”. Entretanto, pode o laço se manter por toda a vida no registro da paixão? Quanto mais um homem se consagra a uma só mulher, mais ela tende a ter para ele uma significação maternal: quanto mais sublime e intocada, mais amada. São os homossexuais casados que melhor desenvolvem esse culto à mulher: Aragão canta seu amor por Elsa; assim que ela morre, bom dia rapazes! E quando uma mulher se agarra a um só homem, ela o castra. Portanto, o caminho é estreito. O melhor caminho do amor conjugal é a amizade, dizia, de fato, Aristóteles.
Psychologies: O problema é que os homens dizem não compreender o que querem as mulheres; e as mulheres, o que os homens esperam delas…Jacques-Alain Miller: Sim. O que faz objeção à solução aristotélica é que o diálogo de um sexo ao outro é impossível, suspirava Lacan. Os amantes estão, de fato, condenados a aprender indefinidamente a língua do outro, tateando, buscando as chaves, sempre revogáveis. O amor é um labirinto de mal entendidos onde a saída não existe.
—
Entrevista realizada por Hanna Waar e publicada na Psychologies Magazine de outubro 2008 (n° 278). Tradução de Maria do Carmo Dias Batista."
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Entrevista realizada por Hanna Waar e publicada na Psychologies Magazine de outubro 2008 (n° 278). Tradução de Maria do Carmo Dias Batista."
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