23 de set. de 2015
Numa sociedade em que o cidadão é
monitorado por "olhos eletrônicos", faróis inteligentes, câmeras
digitais, numa constante sensação de paranóia implícita, o resultado não pode
ser dos melhores. Quando a vida pessoal se transforma num inferno
particular, o mal-estar crônico adquire novas formas sintomáticas e a ansiedade
toma conta.
Neste momento, o que se recomenda é
procurar ajuda profissional. Se for um médico ou psiquiatra, a terapia
medicamentosa estará ao alcance das mãos, mas se a opção fosse um psicanalista,
a terapia baseada na palavra faria o sujeito falar do seu sofrimento. A
prática clínica consiste em fazer o paciente contar sobre quem ele pensa que é
e como ele se apresenta para si e para quem o escuta.
Como enfatizava Jacques Lacan, o
analista age menos pelo que diz e faz do que por aquilo que é.Significa que
este exerce essa função somente quando houver alguém que lhe demande neste
lugar. Entre quatro paredes e um divã, o analista se pergunta: O que ele quer
de mim? A cura ou o apego ao sintoma? Quem ele pensa que sou, quando diz isso?
Em outras palavras, o analista
funciona como arrimo das representações inconscientes com as quais o paciente
dialoga e lida sem saber ao certo que isso acontece na transferência. A
associação livre, regra fundamental do tratamento, opera mudanças quando o
discurso faz um novo sentido, redefinindo o modo de escutar a própria
história. Quem não deseja falar de si para alguém? Ainda mais, quando as
relações são vividas como superficiais, passageiras e vazias. Na era da
comunicação móvel, o diálogo não é mais dialógico, é atravessado pelas lentes
das tecnologias digitais criando uma profusão de sentidos díspares.
Para os mais jovens, as novas mídias e
as redes sociais digitais (facebook, twitter, blogs) são fatos consumados: por
meio destas tecnologias que a vida rola solta.Alguns analistas acompanham a
tendência e postam páginas no facebook, enquanto outros são seguidos no twitter
ou nos blogs inteligentes e criativos sobre temas do cotidiano. Estes eventos
demonstram que a sociabilidade em rede, onde o virtual e o real são vivenciados
como sendo a mesma coisa, chegou para ficar e apresenta dinâmicas nunca antes
cogitadas, enquanto a energia se sustentar, pois na falta dá-se o
caos. Algumas situações que ocorrem hoje em sessões de análise confirmam
como a cultura digital faz parte da produção do inconsciente. Os
analisantes se valem do torpedo para mandar mensagens ao psicanalista como:
"estou a caminho", "desculpe, mas não poderei ir",
"podemos mudar a sessão?" ou, quando não desligam o celular e dizem:
"desculpe, mas preciso atender" ou "vou desligar o
aparelho". Outro fenômeno interessante é quando o paciente, para ser
o mais fiel em seu discurso, lê o que o outro lhe escreveu no celular. Sob
esta perspectiva, as linguagens apresentadas sob os diferentes suportes -
tablets, smartphones, laptops - compõem um aspecto da transferência de saber
que a psicanálise atual deve conhecer e manejar. Segundo a semioticista
Lucia Santaella, "estamos vivendo a transição entre um modelo de acesso
restrito à informação para um modelo aberto e livre, no qual a informação se
espalha por todas as superfícies e ambientes". Com essa constatação,
fica-se mais exposto ao meio; porém, isto poderia prejudicar as análises? Ou,
quanto mais o psicanalista parecer como um de nós, menor seria a idealização
que gira em torno dele?
No passado, havia uma idéia de que o
paciente não podia ter acesso à vida privada do analista, ao ponto de se
produzir enormes resistências ao tratamento, se algo fosse revelado da sua
intimidade.
O constrangimento maior era
encontrá-lo em ambientes comuns e não saber o que fazer: cumprimentar, ignorar
ou se esconder. Naquelas épocas, as análises eram restritas apenas à elite que
podia pagar por elas, e os profissionais, todos de formação médica.
Tudo isso mudou! Hoje, os
psicanalistas são psicólogos em grande maioria, e a psicanálise tornou-se
conhecida e mais acessível. Desperta curiosidade, desejo de conhecer e
experimentar; é assunto freqüente, tanto na mídia, quanto nas pesquisas
acadêmicas.
Em público, diversos analistas emitem
opiniões, participam de entrevistas e debates sobre temas da própria práxis.
Apesar de tantas informações, as
pessoas têm dificuldade de diferenciar psicoterapeuta, psicólogo, psicanalista
e psiquiatra, ainda que se tenha confiança de serem profissionais que cuidam da
"cabeça", da "mente", do "subconsciente", do
"psicológico" e do "comportamento".
As pessoas chegam aos consultórios com
pesquisas feitas no Google sobre o remédio que estão tomando ou sobre o sintoma
favorito, resultando em informações fragmentadas sobre a matéria. Não são
poucas as medicadas indiscriminadamente; mais por médicos generalistas do que
por psiquiatras.
Com notável sucesso de vendas e com o
aumento de usuários das "tarjas prestas", o perfil do consumidor
interessou as agências de publicidade, com os remédios apresentados na
propaganda como produtos de primeira necessidade.
Não é para menos, quem ficou
dependente de ansiolíticos e/ou antidepressivos, para poder se livrar deles,
precisa tomar outra pílula que anula o efeito da anterior, e assim por diante.
É preciso um coquetel de pílulas para
um coquetel de sintomas, deixando como rastro o insone que erra nas noites mal
dormidas. Quem já passou por isso se reconhece quando alguém diz, ao chegar ao
trabalho: "Cara, não agüentei e tomei um Dramin, e agora não consigo parar
em pé".
A ausência de sono que afeta tanta
gente, seja esta breve ou prolongada, é de tirar do sério. Para muitos, o uso
constante das gotas de Rivotríl é mais eficaz do que contar carneirinhos. Pois
é: até para nanar, é preciso se dopar!
Localizado no sono REM, o sonho é
suprimido pela ação da droga, e não há nada menos salutar do que deixar de
sonhar, sem lembrar nada para contar. Perde-se uma parte de si, um detalhe do
mundo anímico que faz coro com o autoconhecimento e a dimensão subjetiva do
desejo.
O inconsciente, patrimônio freudiano,
nada tem a ver com o sistema nervoso central ou periférico. Mas, quando não
podemos evitar que algumas fórmulas de compromisso caduquem com o passar do
tempo, inviabilizando a felicidade e a tranqüilidade, talvez seja o momento
exato para começar uma análise.
Os seres humanos são complicados,
melhor dizendo, complexos. Soltos no mundo, desde crianças, temos de responder,
como adultos, aos desafios da vida, antes reais do que virtuais. E o fato de
sermos falantes, sexuados e mortais, isso não tem remédio. Independente dos
meios eletrônicos, a cura pela palavra mantém seu prestígio, com mais de um
século de sucesso em cartaz.
FANI HISGAIL é psicanalista e doutora em Comunicação e
Semiótica pela PUC/SP e autora do livro "Pedofilia, Um Estudo
Psicanalítico" (Ed. Iluminuras, 2007);
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